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O Filho de Joseph, de Eugène Green

“O Filho de Joseph”, é baseado no mito do Sacrifício de Abraão, um filme de Eugène Green que estreia no dia 16 de Março

Vincent, um adolescente de 15 anos, foi criado com amor por sua mãe, Marie, mas ela sempre se recusou a revelar quem é seu pai. Ele finalmente descobre que é um certo Oscar Pormenor, um editor parisiense egoísta e cínico. Vincent desenvolve um violento plano de vingança, mas seu encontro com Joseph, um homem que vive à margem da sociedade, tem um profundo impacto em sua vida, assim como na vida de sua mãe.

Em uma entrevista com Eugène Green, realizada por Hugues Perrot, podemos conhecer mais sobre o filme:

Seu último filme, “O Filho de Joseph”, é baseado no mito do Sacrifício de Abraão…

O núcleo da história para cada um dos meus filmes e romances vem de outro lugar, num piscar de olhos, e então eu o desenvolvo “miticamente.” Os gregos do período clássico viam um mito como uma história cuja a continuidade da narrativa simples fornecia uma oportunidade de expressar uma ou mais verdades. Conheci pessoas que estavam na mesma situação que Marie e Vincent, ou seja, uma mulher que criava seu filho sozinha, pois o pai não queria estar envolvido por uma razão ou outra. Eu acho que uma mulher que toma a decisão de criar seu filho sozinha é uma mulher corajosa, cheia de vida, uma vida que ela quer perpetuar em outro ser humano. Interromper o processo da vida, que começa no momento em que uma criança é concebida, não é uma coisa simples. No filme, Marie está ciente de que a vida que ela está levando é mais difícil para ela, e também para seu filho, que pode estar sujeito a sentimentos de raiva ou ódio em relação a sua mãe. Vincent, interpretado por Victor Ezenfis, é de fato habitado por tais sentimentos. Ele não compreende inicialmente a bravura de sua mãe, nem o amor que ela sente por ele. Ele a vê como uma mãe que o privou de um pai e que está escondendo a existência desse pai. Ele sai para encontrar seu pai, mas a revelação que ele terá não é a que ele espera.

Você estruturou “O Filho de Joseph” em partes separadas, algo que você costuma fazer em seus filmes. Aqui, cada parte faz referência a uma passagem na Bíblia.

Sim, o filme é dividido em cinco partes, cada uma se refere a uma passagem na Bíblia: “O Sacrifício de Abraão”, em que o personagem de Vincent confronta sua mãe e luta com sua incompreensão em relação ao pai ausente; “O Bezerro de Ouro”, que evoca o mundo da publicação com seus jogos de poder e inclinação pra idolatria; “O Sacrifício de Isaac”, em que Vincent tenta sacrificar seu pai em uma inversão do mito; “O Carpinteiro”, na qual se estabelece uma relação de pai e filho que não é baseada no sangue, lembrando a que existe entre Jesus e José; e finalmente, “O Voo para o Egito”, em que Joseph, Marie e Vincent deixam Paris para a Normandia. Esta associação com a Bíblia é importante para mim, assim como tudo o que constitui minha cultura e, portanto, minha experiência de vida.

Na parte “O Bezerro de Ouro”, você usa a sátira, um gênero que você gosta, no mundo literário, como você fez com o teatro e a música barroca em “Le pont des Arts” e a arquitetura em “La Sapienza”. Qual é a sua relação com esta forma particular de expressão?

Sátira vem naturalmente quando estou evocando ambientes que são familiares para mim e eu quero extrair algumas de suas características mais grotescas. Eu não tive nenhum problema particular com as editoras com que eu trabalhei para meus próprios livros, mas há sempre humor para ser encontrado quando você se move em círculos fechados. Eu compartilho um pouco da raiva de Vincent, mas eu penso que a sátira é uma maneira agradável de esvaziar a raiva e deixar o espaço para o amor.

O personagem interpretado por Mathieu Amalric, Pormenor, é um mandachuva no mundo da publicação que parece possuir algum tipo de poder sombrio, plenipotenciário. A princípio, ele parece condenável por estar moralmente falido. Mas sentimos que ele perdeu algo, e isso lhe dá uma dimensão humana que estava ausente, por exemplo, no personagem conhecido como O Inominável em “Le pont des Arts”.

Existe uma ideia Pascaliana que sustenta que você pode receber graça e recusá-la. Talvez Pormenor tenha recusado uma graça recebida durante a infância, ou, pelo menos, distanciou-se dela assim que começou sua ascensão no mundo literário. Talvez no final do filme, Pormenor perceba que perdeu a vida. Eu tentei suavemente atingir esse ponto sem ir tão longe como redimir o personagem no extremo. A atuação sutil de Mathieu Amalric na sequência final foi uma grande ajuda para mim nesse esforço. Eu sentia que era importante vislumbrarmos uma dimensão humana neste personagem, que de outra forma parece completamente desprovido de humanidade.

Como em “La Sapienza”, a transmissão entre Joseph e Vincent flui em ambos os sentidos. Eles se enriquecem e se atraem, para si mesmos e para o mundo ao seu redor. Além disso, Paris parece revelar sua melhor natureza para Vincent, que já tinha visto a cidade como hostil.

Isso é verdade. Vincent tem uma revelação inesperada. Ele não vai encontrar a figura que está faltando em sua vida em seu pai biológico, mas sim em seu tio, que ele não sabia que existia e não vai saber quem ele é até o final do filme. A transmissão entre eles acontece sobretudo através de palavras, mas também através da arte, o que lhes permite aprofundar o seu relacionamento. Eu não vejo a arte de outra maneira. Deve ser vital, isto é, deve se sobrepor à vida, de uma maneira ou de outra. O dia no Louvre dá a Joseph e a Vincent uma possibilidade de crescer mais perto. O que Vincent experimenta quando atravessa o Palais Royal e sente o soprar do vento é igual a revelação que ele tem ao olhar para pinturas com Joseph. Paris está se revelando a ele, como um personagem, da mesma maneira que Joseph e Marie se revelam a ele e uns aos outros.A transmissão entre Joseph e Vincent parece ser precisamente possível pois está acontecendo entre um adulto e um adolescente. Duas duplas similares são formadas entre os personagens de “La Sapienza”.

No fundo, eu ainda penso em mim mesmo como um adolescente, e tenho um monte de amigos que são mais jovens do que eu. Minha amizade com eles me permite manter a parte juvenil de mim mesmo viva. Eu sinto que meus amigos mais novos me dão tanto quanto eu posso lhes dar. A transmissão flui em ambos os sentidos. Em meus filmes anteriores, os personagens eram todos mais ou menos da mesma idade e avançaram juntos. Em “La Sapienza” e “O Filho de Joseph”, a relação entre os adultos e os adolescentes está provavelmente mais próxima daquela que tenho na minha própria vida.

Como você escolheu os atores adultos no filme?

Os três principais papéis adultos são interpretados por atores que conheço bem e com quem já trabalhei: Natacha Régnier em “Le pont des Arts”, Fabrizio Rongione em “La Sapienza” e Mathieu Amalric em “Les Signes”. Muitas vezes vi Maria de Medeiros em filmes e em peças, trabalhando em francês e português, e foi um prazer trabalhar com ela pela primeira vez. Eu tive experiências com a maioria dos outros atores, especialmente quando eu trabalhava no teatro. Foi uma grande alegria trabalhar com todos esses atores e com a equipe técnica também.

Conte-nos sobre Victor Ezenfis, que estamos vendo em um filme pela primeira vez.

Victor é um jovem rapaz muito inteligente, animado e astuto. Eu rapidamente senti que ele poderia encarnar Vincent. Ele tem essa vida interior que corresponde ao personagem. Eu nunca faço testes onde eu peço aos atores para reproduzir cenas. Eu simplesmente lhes peço que se apresentem, pois o que é mais importante para mim é entender sua vida interior e observar como ela se manifesta. Eu trabalhei com Victor como eu faço com todos os meus atores. Eu estabeleci uma relação de confiança que nos permitiu trabalhar juntos em perfeita harmonia.

Esta é a primeira vez que você dirige uma cena de sexo.

Primeira representação de um coito, sim. Com o risco de chocar algumas pessoas, acho que a censura deixou espaço para um erotismo que parece perdido agora. A partir de meados dos anos 70, temos mostrado tudo, até o ponto em que muitas vezes tenho a impressão de estar numa aula de zoologia enquanto assisto a uma cena de sexo. Nada se insinua; tudo é apresentado diretamente, sem imaginação. Então eu optei por filmar as molas do divã em que Pormenor e sua secretária fazem amor. Parecia uma boa maneira de sugerir esse ato erótico em particular, que é cômico e também um pouco triste, como estamos testemunhando através dos olhos de Vincent. Precisamos ser capazes de voltar à emoção associada à modéstia e ao desejo, que nada mais é que a ausência de expressão concreta. Todos os grandes poetas do amor desde Sapho sabem disso. Um plano de duas mãos que se tocam diz mais sobre o desejo amoroso do que o próprio ato filmado firmemente em sua totalidade.

Há também a cena na igreja onde Le Poème Harmonique realiza uma peça de Domenico Mazzocchi …

Sim, é a mesma coisa. Naquele momento, Vincent tem uma revelação estética. Ele não entende os versos, que são cantados em latim e relatam a dor de uma mãe na morte de seu filho, mas ele recebe a emoção diretamente através da música e da energia dos artistas. Algo se abre dentro e diante dele, e ele entende o amor de sua mãe por ele, e sua coragem em enfrentar a vida. Logo depois disso, ele decide apresentar Joseph à mãe, provocando uma nova relação. A partir desta experiência estética, dois relacionamentos são formados ou reformados: Marie e Joseph, Joseph e Vincent. Usar a música inteira no filme era importante, porque para Vincent, como para o público, uma obra musical só é significativa quando tocada em sua totalidade, respeitando seu comprimento total.

Poderia se pensar que este desvio através do conhecimento removeria os personagens da sua ligação visceral com o mundo, mas na verdade os ajuda a se relacionar com coisas ao seu redor, inanimadas ou não.

Sim, e é a mesma distinção que Alexandre, o arquiteto de “La Sapienza”, faz no final desse filme entre conhecimento e sapiência, que é o conhecimento que leva à sabedoria. Sapiência é adquirida através da aprendizagem, mas também através da vivência. Penso que é importante que as pessoas vejam o mundo através da arte de uma maneira direta, sem interferência do intelecto, e que a experiência estética revele outra verdade, diferente da que pensamos conhecer.

Nascido em Nova York, Eugène Green se transferiu à Paris para estudar no fim dos anos 1960. Em 1977, começou a companhia Théâtre de la Sapience. Come çou sua carreira no cinema em 1999, filmando seu primeiro longa-metragem, “Toutes les nuits” lançado em 2001. O filme foi inspirado no livro ‘Educação Sentimental’ de Gustave Flaubert. Dois anos depois, seu segundo filme, “Le Monde Vivant” (2003), foi exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes. Em 2004, lançou “Le p ont des Arts”. Seu curta,”Correspondances” (2007) parte da trilogia “Memories”, com curtas de outros dois cineastas, Harun Farocki e Pedro Costa, ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno. Em 2009, lançou “A Religiosa Portuguesa”, filmado em Portugal. Seu filme “La Sapienza” (2015) fez parte da seleção do Festival de Locarno e ganhou o Prê mio de Melhor Filme no Festival de Sevilha. Green também publicou ensaios, contos e livros de poemas.

Toutes les nuits (2001) / Le nom du feu (curta-metragem – 2002) / Le Monde vivant (2003) / Le pont des Arts (2004) / Les signes (curta-metragem – 2006) / Correspondances (curta-metragem – 2007) / A Religiosa Portuguesa (2009) / La Sapienza (2014) / Faire la parole (2015) / O Filho de Josep

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